“Estado” da Nação

Manisfestações, intimidação, medo, insatisfação… Estas são algumas das palavras que caracterizam o clima político vivido actualmente em Angola. O número de jovens que se juntam ao movimento revolucionário no país cresce a cada minuto. O sentimento de revolta já começa a produzir frutos, tanto que os guardiões do regime, dominados por um medo quase que infundado, cometem “gafes” descomunais totalmente desnecessárias. Em suma, os “ventos do Norte” ainda sopram violentamente, assolando também as estruturas no nosso país.

 

Perante um contexto tão determinante para o futuro de Angola, a ignorância, auto-sensura e passividade ainda atingem níveis astronómicos na nossa sociedade, como demonstrado, por exemplo, no incidente em que Luaty Beirão tivera sido agredido em plena luz do dia numa via pública. Infelizmente em Angola, cidadãos comuns ainda sofrem represálias pelo simples facto de exprimirem opiniões diferentes. Infelizmente em Angola, os cidadãos comuns não se encontram dispostos a denunciar atropelos aos seus direitos. Infelizmente em Angola, a sociedade ainda não é madura e responsável o suficiente para assumir o que realmente pensa e anseia perante as autoridades. Relatamos insatisfações em mujimbos e damos as costas na hora de arcar com as consequências. Infelizmente em Angola, cidadãos comuns ainda se corrompem por ganhos vergonhosos provenientes do mais puro serventilismo. O povo rebaixa-se a si próprio, aceitando esmolas provenientes de toda a riqueza a que tem direito. Existem várias “soluções” para os males da sociedade angolana. Porém, a meu ver, o princípio básico a ser resgatado é o poder popular.

 

O poder popular é uma realidade esquecida (e até mesmo desconhecida) do povo angolano que, ironicamente, é muito eficazmente ilustrada no refrão do nosso Hino Nacional:

“Angola avante! Revolução

Pelo poder popular.

Pátria unida, liberdade.

Um só povo, uma só Nação!”

A história ilustra claramente que as maiores conquistas populares foram apenas possíveis por povos cientes do facto de que eles detinham o poder sobre os seus próprios destinos, como também o poder sobre o destino de suas próprias Pátrias. Na nossa Nação, este poder popular está a ser re-descoberto pela camada jovem revolucionária supracitada. Contudo, talvez por falta do devido direccionameto, este processo tem sido um tanto quanto contraditório: os jovens que sofrem atentados organizados pelo regime a título de retaliação pelo exercício da liberdade de expressão apresentam queixas a uma polícia corrupta fiél a este mesmo regime. As manifestações populares contra o regime devem ser aprovadas por órgãos que, por sua vez, servem o mesmo regime. É bem verdade que as estruturas governamentais devem ser respeitadas, mas também é verdade que estas devem servir o povo. A questão subsequente é óbvia: como certificar que os órgãos governamentais não estão comprometidos? A resposta: uma oposição política competente. A oposição política é a única estrutura capaz de exercer o “pressing” necessário para que estes órgãos funcionem devidamente.

 

Resumindo, a juventude de um país é o maior impulsionador no direccionamento da Nação. No entanto, a acção juvenil deve ser acoplada de uma acção política a fim de desencadear resultados relevantes. Nesta óptica, a inércia actual da oposição política em Angola é absurda, assim como também é absurda a falta de responsabilidade política dos jovens, principalmente os jovens manifestantes. Esta situação é ainda mais agravante tendo em conta o contexto político e socio-económico do país, como também considerando o facto de que mais um ano eleitoral se aproxima.

 

É bem verdade que os meios normais para o exercício da actividade política em Angola são totalmente condicionados pelo sistema, mas, como a nossa juventude tem demonstrado, a condescência não é a solução. Mais importante que encontrar culpados e discutir o que deveria ou não deveria ser é resolver os problemas (do povo). A juventude abriu as portas à uma solução viável para tal. No entanto, esta solução deve ser implementada sabiamente de modos a que as insatisfações se traduzam no estabelecimento de medidas para a sua resolução dentro de um sistema democrático.

 

Sorrateiramente, com visitas para o Cazenga, Viana e até Menongue, o partido no poder já começou a sua campanha política tendo em vista o pleito eleitoral previsto para 2012. Entretanto, a juventude se organiza e o número de manifestações aumenta ao passar dos dias, mas sem nenhuma ligação aparente às eleições de 2012 e muito menos às estruturas governamentais do nosso país, sendo as exigências habituais de afastamento do partido do poder do governo nacional assim como do seu presidente, uma excessão à esta regra. Perante tamanha agitação, os maiores partidos da oposição permanencem na penumbra, aguardando por um qualquer acontecimento. Em outras palavras, as associações juvenis ignoram o carácter político de suas manifestações, não assumindo esta responsabilidade. Os partidos políticos (poder e oposição) não se associam a estes jovens, neglegenciando o deferimento devido às suas acções.

 

Albert Einstein definiu loucura como sendo a expectativa de resultados diferentes, não obstante repetirmos as mesmas acções. Acredito que também é irracional esperarmos resultados sem que promovamos as mudanças necessárias, e como é sabido, não há mudanças sem sacrifícios. O “status quo” do nosso país é insustentável, mas cabe a nós, os jovens e à população em geral resgatar o poder popular há muito alienado, a fim de determinarmos de facto o destino da nossa Nação.

 

Victor de Barros

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~ por Havemos de Voltar em Junho 16, 2011.

Uma resposta to ““Estado” da Nação”

  1. gostei imenso o que foi escrito nesta página, muito sinceramente angola precisa de uma juventude forte e determinante nas suas acções, já que a nossa oposição é tão frágil, nós como jovens devemos lutar para que haja mudança no nosso país e como foi dito e muito bem, não há mudança sem sacríficio.

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