Pan-Africanismo

Na semana antecedente a mais um dia dedicado ao velho continente tive a oportunidade de participar de uma palestra em que um dos debates retratou o termo “pan-africanismo”. A minha primeira reacção ao tomar ciência de tal debate foi de total desinteresse. Estava familiarizado com a palavra por meio do Parlamento Pan-africano, estrutura ligada à União Africana, como também por outras informações de que dispunha relaccionadas ao órgão denominado “Nova Parceria para o Desenvolvimento de África”, ou em Inglês, “NEw Partnership for Africa’s Development (NEPAD)”, tanto que para mim a presença no referido evento tivera sido meramente por conta de compromissos profissionais. Contrariamente ao que tinha previsto, a palestra foi extremamente interessante e informativa, superando todas minhas expectativas, o que me motivou a investigar mais sobre o assunto. Os pontos que considero fulcrais sobre o tema em questão, resultantes de tal esforço, são apresentado nos próximos paragráfos.

O termo “pan-africanismo” foi criado por um advogado de origem africana chamado Sylvester Williams em 1900, mas a ideologia já existia desde o princípio do século 18, como resposta à exploração colonial, escravatura e racismo existentes na época. Ironicamente, o pan-africanismo como ideologia foi estruturado inicialmente na diáspora, por intermédio de nomes como Marcus Garvey, W. E. B. Du Boiss, Malcom X, Luther King, entre outros. O tema central desta ideologia é relaccionado com a união do continente africano na luta contra a subjugação, na altura Europeia, mas que actualmente incluí os demais continentes, nomeadamente as Américas e a Ásia. Várias figuras históricas como Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba, Samora Machel e  Steve Biko defendiam a integração política e económica dos países africanos, afirmando que este seria o único meio de colocar estes países em pé de igualdade com os países mais desenvolvidos. Nos dias de hoje, essas ideias são actualizadas e difundidas por movimentos independentes como os Rastafaris, e ONGs dentre as quais encontramos a “Black Wash”, da qual Andile Mngxitama, um dos palestrantes, é membro.

Em 2011, após 48 anos desde a instituição do Dia de África em homenagem à criação da Organização da Unidade Africana, acredito que os precursores do pan-africanismo estariam decepcionados com o estado actual desta ideologia. Motivos para tal não faltam, mas as raizes de tal crise seguem:

  • Lideres como Mugabe e Gadaffi, que foram membros pionerios do pan-africanismo nos seus respectivos contextos, hoje não têm o mínimo de consideração para com os seus povos. Este fenómeno, embora numa escala menos alarmante, pode ser verificado na maioria dos países africanos, onde os lideres que outrora defendiam os interesses dos seus povos e do continente, são os mesmos que vendem todas as possibilidades de prosperidade às potências ex-coloniais e emergentes em troca de ganhos pessoais.

  • O povo em geral, e mais especificamente a juventude, não tem uma consciência pan-africana. Isto em parte deve-se ao sistema em vigor actualmente. Malcom X referia-se a este fenómeno quando definiu os escravos como sendo ou do campo ou de casa. O escravo do campo era o escravo explorado, sem condições e como resultado odiava o dono. Por outro lado, o escravo de casa recebia os restos das comidas e das roupas do senhorio e porquanto desta “benevolência”, ele venerava o seu dono. O resultado é evidente: o escravo do campo, farto da exploração, ansiava em tornar-se um escravo de casa. Consequentemente, o escravo de casa, receoso de perder as suas regalias, tornava-se mais fiel ao seu dono e odiava cada vez mais os seus irmãos do campo. Derradeiramente, a identidade dos escravos era diluida na cultura colonial, desaparecendo paulatinamente e deixando em troca uma rivalidade entre os escravos, que perpetuava a própria escravatura.

Os aspectos mencionados reflectem a falta de uma liderança adequada para o contexto do continente, como também a predisposição do povo africano a assumir um estado de servidão. Os líderes tomam decisões ludibriados por propostas enganadoras das super-potências. O povo rejeita a sua cultura a favor de hábitos e costumes estrangeiros e dessa forma o pan-africanismo vai desaparecendo sorrateiramente.  Esse estado é assegurado pela política (ex: democracia), económia (ex: globalização) e pela própria sociedade (ex: educação). As bases destas frentes, embora sejam adequadas à cultura ocidental, são totalmente inapropriadas ao contexto africano. Por exemplo, o baixo índece de escolaridade do povo africano não permite, logicamente, a existência de uma real democracia. A globalização da economia impossibilita qualquer hipótese de um desenvolvimento significativo do continente africano. A educação recebida nas escolas e universidades é condicionada, a história é rescrevida pela parte dominante.

Os aspectos apresentados acima são nada mais do que um subconjunto ínfimo das ideias promovidas pela palestra. No entanto, o objectivo deste artigo não é discutir todas as ideias resultantes do debate apresentado, mas sim promover a troca de ideias e sensibilizar a sociedade africana sobre estes temas, que são grosseiramente negligenciados. De qualquer forma, concluo o artigo dizendo que o pan-africanismo não deve ser baseado em fronteiras delineadas pelos poderes coloniais. O pan-africanismo deve ser uma integração de culturas africanas, de pessoas e não de estados. Com isto quero dizer que a consciência do povo africano deve ser despertada e esforços devem ser envidados a fim de estabelecermos, por nós próprios, o nosso continente como uma super-potência mundial.

Victor de Barros

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~ por Havemos de Voltar em Maio 24, 2011.

4 Respostas to “Pan-Africanismo”

  1. obrigado pela informaçao .

  2. o pan-africanismo mesmo nos dias recentes deve ser feito por todo aafricano na diaspora,porque hoje ainda são muitos os africanos que são limitado os seus direitos la for

  3. Muito obrigado pelo comentario, mas na verdade so s criou o Pan africano, mas ate hoje existe vario povos que vivem ilimitado, isto so se fala que existe a unidade espiritual e politica. Apenas o negro ainda é escravizado de uma forma passifica.

  4. : A diáspora é o processo de dispersão de um povo e sua cultura pelo mundo. Neste caso, o povo africano. E Pan-africanismo é o processo de transformar todos os reinos da África em um único bloco, onde o respeito e a valorização das características culturais de cada reino sejam valorizados, buscando um melhor desenvolvimento do continente como um todo.

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