A Luta Continua

Mais um dia 4 de Abril é comemorado na jovem história pós-guerra do nosso país. Como é de hábito, nas datas festivas em Angola organizam-se passeatas, festivais, maratonas e eventos similares. O Dia da Paz não foge a regra. Reclames publicitários tanto nas rádios como nas televisões evidenciam a euforia vivida nas vésperas desta data e a ansiedade do povo em desfrutar de mais um fim-de-semana prolongado.

No meio deste tumulto, tenho a infeliz percepção que a maior parte do povo angolano não se dá conta do contexto único em que o 4 de Abril de 2011 será comemorado. Deveria ser mais do que óbvio que o periodo em que vivemos actualmente representa um momento de viragem na história universal. A manifestação popular que se passou na Tunísia alastrou-se para o Egipto e a sua influência se fez sentir até a Líbia. Este evento influenciou significativamente o restante do continente, e o nosso país não foi uma excepção. A vaga de sentimentos revolucionarios que recheia a alma do povo que, recorrendo a todos os meios ao seu alcance, tenta de forma desesperada resgatar a si proprio é, no meu ponto de vista, equiparável a situaçao existente na época colonial, em que os nossos pais e avós desejavam calorosamente a libertaçao do jugo português.
A manifestação do dia 7 de Março de 2011 em Luanda foi meramente a materialização deste sentimento de revolta que vem, pouco a pouco, tomando conta do ser de um número cada vez mais significante de cidadãos. As bocas, embora ainda silenciosas, já não estão completamente caladas e o poder estabelecido já sente uma certa pressão sobre si. Mas, como escreveu e bem Kukiela, este foi meramente o primeiro passo. Claramente esta afirmação implica uma continuidade, implica que mais passos devem ser dados. Para muitos dos jovens angolanos na diáspora, o próximo passo tomou a forma de um número de manifestações que se realizaram nos respectivos paises em que residem. Para meia-dúzia de pessoas que decidem não tapar o sol com a peneira em Luanda, o próximo passo será meterializado através de uma manifestação com a finalidade de reclamar os atropelos à liberdade de expressão que acontecem no nosso país. Daí surge, talvez até prematuramente, uma preocupação cujo resultado é este artigo.

Para quem conhece bem a psicologia do povo angolano é sabido que tudo vira moda neste país. A minha preocupação é que este clima promissor que se vive actualmente seja reduzido a uma mera febre de manifestações que no final das contas terão um resultado insignificante. Digo isto porque embora certas pessoas tenham uma ideia clara dos ideais e propósitos das manifestações que apoiam, uma leitura de comentários na internet demonstra que a maior parte dos participantes engagam nessas demonstrações ou pelas suas frustrações pessoais ou por uma esperança, geralmente infundada, resultante de um desgaste pessoal causado pelas batalhas diárias travadas a fim de vencer as dificuldades que o sistema apresenta. Estes dois sentimentos são fervorosos e dão um impulso considerável no início de qualquer revolução. Contudo, eles não são muito duradouros e consequentemente são incapazes de alimentar um processo revolucionário na sua íntrega. Para que uma revolução seja bem sucedida é necessário uma convicção, uma entrega ideológica e emocional à causa a ser defendida. Se analisarmos o sucedido nos países norte-africanos, este factor foi evidente: as pessoas eram solidárias umas com as outras até ao ponto da polícia rejeitar combater os manifestantes por se identificar com os seus motivos, com as suas indignações. Todos eram a favor do ideal que a manifestação propunha. Nenhum dos manifestantes pós o seu cargo como professor, polícia, comerciante ou outra qualquer conquista pessoal acima das convicções defendidas. Todos eram um só povo, todos eram uma só nação! Adicionalmente a este factor, também é necessário ter-se uma ideia clara de como prosseguir após uma manifestação bem sucedida. Comentários como “o povo está cansado” e “o governo é corrupto”, embora carreguem uma carga emocional muito forte, não são muito úteis em termos prácticos.

Se, hipoteticamente falando, o governo decide oferecer uma casa, um carro e uma soma de dinheiro a todos que se auto-entitulam revolucionários no nosso país, eu acredito que mais de 90% destas pessoas abandonariam a causa no mesmo instante. Isto pelo simples facto da contestação não ser contra o sistema em si, mas contra o facto de que essas mesmas pessoas não obtêm lucros deste mesmo sistema. A intenção não é mudar o sistema, mas sim mudar a condição pessoal de cada indivíduo. A atitude é “já que até agora não vi nada, vamos mudar o governo para ver se vejo alguma coisa”. E é óbvio que se a situação se mantiver, mais revoluções acontecerão. O bode espiatório é sempre o chefe-de-estado e o seu governo. Embora esta seja uma ideia que agrade algumas pessoas, na minha óptica, ao menos que exista a convicção revolucionária mencionada anteriormente, o que exigiria um processo (geralmente moroso) de instrucção e de planejamento, todas essas manifestações a serem organizadas serão ineficientes. Suponhamos que uma audiência com o chefe-de-estado seja solicitada aos líderes destas manifestações. Acredito que as exigências seriam na linha do “queremos ter mais liberdade de expressão”, ou “queremos o fim da corrupção” ou algo similar. Ao meu ver, um plano de como alcançar essas exigências do ponto de vista dos manifestantes seria mais relevante. Uma lista de procedimentos a serem implementados pelo Estado, verificável nos seus mais diversos níveis de implementação, daria mais solidez a qualquer forma de indignação popular caso não fosse honrada.

Infelizmente, por esta altura muitos dos leitores já classificaram este artigo como pró-governo, como pró-MPLA. Gostaria de deixar claro que este não é o caso. Como Claúdio Silva já fez referência, a cultura de que no nosso país apenas duas posições políticas (pró e contra MPLA) existem tem que acabar. As minhas convicções políticas são irrelevantes para este artigo. Simplesmente acredito que não podemos cobrar do governo o que nós próprios, o povo, não estamos dispostos a oferecer. Não quero com isso dizer que não existem falhas graves no governo que devam ser corrigidas independentemente da participação popular, mas para os factores que considero básicos e mais relevantes para uma governação eficaz, a participação do povo é essencial. Por exemplo, como podemos cobrar liberdade de expressão do governo se não deixamos o nosso co-cidadão exprimir livremente a sua opção religiosa, orientação sexual ou escolhas um pouco diferentes das nossas? Como podemos cobrar imparcialidade do governo se somos parciais com nós mesmos? Como cobrar organização administrativa se nós próprios somos completamente desorganizados? Essas questões nem sequer são apresentadas do ponto de vista moral, mas sim do ponto de vista práctico, visto que não obstante ser verdade que moralmente não possamos exigir dos outros o que não estamos preparados a dar, é impossivel o governo limpar um povo sujo, o governo dar liberdade a um povo opressor, o governo trazer prosperidade a um país desorganizado e por aí em diante.

Há quem diga que cada povo merece o governo que tem. Não me pronunciarei quanto a veracidade deste ditado, mas lanço um desafio a nós mesmos: mudemo-nos a nós próprios, o povo, antes de exigirmos mudanças do governo. Deitemos o lixo de nossas casas nos contentores ao invés de na porta do vizinho ou pela janela do apartamento. Sejamos educados e cuidadosos com o próximo ao invés de querermos sempre tirar partido das pessoas e parecer superiores, como se nos envergonhassemos de ser simples cidadãos comuns. Que criemos grupos de acção nos nossos bairros, que promovamos o debate e a troca de ideias de qualquer forma que estiver ao nosso alcance. Se o governo nos impossibilitar desses esforços por qualquer motivo (o que não creio que aconteça), que façamos o que tiver que ser feito de forma clandestina. Antes de darmos os nossos problemas a terceiros, que sejamos nós próprios a tentar resolve-los.

Nas vésperas de mais um dia de celebrações no nosso país proponho que nós, o povo, iniciemos uma revolução no nosso seio. Que nos manifestemos contra aqueles que são corruptos, contra aqueles que são egoístas e aproveitadores no meio de nós. Que aqueles que tornam a nossa sociedade vergonhosa sejam instruidos e recuperados, e caso este processo falhe, que sejam marginalizados. Nas vésperas do dia 4 de Abril de 2011, proponho que utilizemos o gás de mudança que se encontra disponível actualmente de uma maneira sábia, não deixando-o vazar completamente antes que a grande explosão aconteça. Que multipliquemos as nossas virtudes e abdiquemos dos nossos vícios. Que identifiquemos e trabalhemos em prol de mudanças relevantes, efectivas e duradouras para a melhoria das condições de todo o povo no nosso país, de Cabinda ao Cunene. Embora se comemore a 4 de Abril de 2011 mais um Dia da Paz, para nós, o povo, a luta continua. Quanto a victória… essa depende de nós próprios!

Victor de Barros

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~ por Havemos de Voltar em Abril 2, 2011.

4 Respostas to “A Luta Continua”

  1. Primo Victor,

    Já li e reli este artigo. Concordo plenamente com as ideias aqui expostas: a mudança começa com nós mesmo, é em primeiro lugar uma mudança pessoal. Bem haja.

  2. […] Por Victor de Barros (do blog Havemos de Voltar) […]

  3. Agora no que toca ao que podemos ou nao cobrar o governo, ai discordo de alguns pontos…penso que o governo deve dar o exemplo e construir uma sociedade melhor, porque lhes elegemos para isso.

  4. No meio deste tumulto, tenho a infeliz percepção que a maior parte do povo angolano não se dá conta do contexto único em que o 4 de Abril de 2011 será comemorado. Deveria ser mais do que óbvio que o periodo em que vivemos actualmente representa um momento de viragem na história universal. A manifestação popular que se passou na Tunísia alastrou-se para o Egipto e a sua influência se fez sentir até a Líbia. Este evento influenciou significativamente o restante do continente, e o nosso país não foi uma excepção. A vaga de sentimentos revolucionarios que recheia a alma do povo que, recorrendo a todos os meios ao seu alcance, tenta de forma desesperada resgatar a si proprio é, no meu ponto de vista, equiparável a situaçao existente na época colonial, em que os nossos pais e avós desejavam calorosamente a libertaçao do jugo português.
    GOTEI DESSA

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