Xé Menino, Fala Política

O Papel da Juventude no Desenvolvimento de Angola

Por Cláudio Silva

 

“Antigamente,

A velha Chica

Vendia cola e gengibre…”

Assim começa uma das mais icônicas músicas do cantor angolano Waldemar Bastos, com aquele refrão poderoso que todos nós conhecemos,

“Xé menino não fala politica,

não fala politica,

não fala politica..!”

E assim respondiam (e respondem) os nossos pais e mais velhos quando nós ‘jovens’ fazemos perguntas um pouco difíceis, um pouco mais pertinentes, perguntas que causam um certo embaraço por serem questões que lidam directamente com a nossa cidadania e a nossa angolanidade. Basta ouvir a letra da música do Waldemar Bastos para percebermos as implicações e o contexto de tal advertência por parte dos nossos mais velhos.

É importante também perceber o porquê desta reacção por parte deles ainda nos dias de hoje, quando Angola já está independente, nas palavras do Waldemar Bastos. É que os nossos pais cresceram num clima altamente repressivo e totalitário, e viveram durante os piores momentos da nossa história. Falo da época colonial, os tumultos da independência, o 27 de Maio, e o tempo do partido único e a guerra civil, em que “falar politica” era altamente perigoso e qualquer conceito de debate era rapidamente suprimido.

A nossa cultura, desde há muito tempo, não permite o debate aberto, a troca de ideais e a critica construtiva. Neste clima de terror e medo para aqueles que detêm ideias contrarias, não é de estranhar a reacção dos nossos pais quando tocamos em assuntos de “politica”. A geração dos nossos pais, tios e tias, que está agora no poder, viveu uma realidade adversa, e embora muitos deles têm sabido evoluir com o tempo, outros ainda estão agarrados ao clima do passado e com ideias caducas. Isso nota-se nos seus discursos e práticas, que  fazem lembrar o comunismo e o tempo do partido único e não alguém que realmente percebe o que é a democracia. Democracia é um conceito que ainda faz confusão na cabeça de muita gente que manda neste país, pois as suas mentes são reféns de outros tempos e outras realidades.

A nossa realidade, porém, como jovens angolanos pertencente a geração que não nasceu na época colonial e mal se lembra do tempo do partido único, é outra.

Para nós, chegou a hora de falar politica.

Somos o maior grupo demográfico de Angola. Várias fontes fidedignas afirmam que 43.5% da população angolana tem entre 0-14 anos, e muito mais que metade da população está entre os 0-35 anos. Ou seja, somos o grupo demográfico angolano com mais poder de voto e com quem o governo mais deve se preocupar, o que significa dizer que somos uma realidade politica que requer cuidados especiais. Somos a esmagadora maioria. Muitas vezes ouvimos dizer que somos o futuro da nação (ou a minha preferida, “o futuro do amanhã”) mas vemos muito pouco em termos de investimento nas camadas jovens. Mais que 60% da população tem menos que 35 anos, mas os investimento na educação são uma anedota comparado com o que o estado gasta na Defesa, numa época em que já não estamos em guerra e o dinheiro que vai para esta esfera é mais para segurança interna (leia-se, supressão de ideias contrarias, espionagem, etc.).

É imperativo também realçar que somente duas forças politicas realmente moveram (e movem) massas neste país, e quase todos da geração dos nossos pais aderiu a uma delas. Quando nascemos e enquanto crescemos, naturalmente quiseram fazer o mesmo connosco, não reconhecendo que em muitos casos as suas ideias já não são pertinentes para o século 21 e os tempos em que vivemos. A libertação já foi alcançada e a independência para todos os efeitos já é total. Ademais, muitos de nós, principalmente a viver na diáspora, somos apartidários e não nos revemos nos estatutos e praticas dos dois maiores partidos do país.

Contudo, a maneira preferida do governo em lidar com os jovens é simplesmente instalar colunas gigantes num espaço aberto, pôr kuduro a tocar e trazer grades e grades de cerveja, numa grotesca e putrefacta tentativa de nos domar a todos por via da intoxicação e alienação total. Reina a desinformação e o medo.

Pergunto que tipo de jovens é que o governo quer formar, que tipo de jovens é que eles querem que um dia lide Angola.

Gosto de Cuca como qualquer um (talvez um pouco mais, porque é talvez a melhor cerveja do mundo), mas tenho a consciência que somos os herdeiros deste país. Quando a geração dos nossos pais já não estar entre nós, que tipo de país vamos ter? Quem serão as nossas referencias? Os nossos governantes? Seremos nós mesmos. E o investimento na nossa educação e bem estar tem que ser massivo, mas vemos o contrário a acontecer. O conceito de cidadania e angolanidade, o conceito de que temos que trabalhar para desenvolver o nosso país, ainda não existe entre nós. Até agora, atrevo-me a dizer que estamos a brincar de desenvolvimento, somente a construir prédios sem gestores, escolas sem professores, e hospitais sem médicos. Quando realmente começarmos a investir no nosso capital humano, aí sim, estaremos a nos desenvolver.

É pertinente realçar aqui que na nossa Angola, o petróleo vai acabar. Dizem os especialistas que já estamos no pico da nossa produção, e que a seguir será o deslize. Teremos que viver sem depender das receitas petrolíferas. Que tipo de economia herdaremos? Que alternativas temos? Será que a nossa economia está sendo devidamente diversificada agora? E as nossas dívidas externas? E o problema chinês? O que faremos quando já não podemos pagar a China com petróleo, e temos aqui milhares de chineses? Isto tudo para não falar no desemprego gritante que estamos com ele. São problemas que vamos herdar, e sobre os quais temos que começar a pensar agora. Em vez de estarmos sempre de olho no ocidente, é tempo para começar a aprender com os nossos vizinhos da SADC e não só que estão mais desenvolvidos que nós em todos os sentidos, incluído a África o Sul, as ilhas Seychelles, o Botsuana, e em termos de governação e transparência, as ilhas de Cabo Verde.

Isso tudo para mostrar que chegou a hora de acordarmos do nosso sono profundo e começar a falar politica e cidadania. Se não nos metermos nos assuntos que gerem o nosso país, depois será tarde. Porque o futuro já chegou e os problemas são reais. Os tempos são outros, e a nossa geração tem problemas e oportunidades distintas da dos nossos pais. Se os (não) acontecimentos do 7 de Março serviram para alguma coisa, pelo menos serviram para sabermos que nem tudo o governo controla (leia-se, a internet), e talvez chegou a hora de começarmos a usar os nossos Facebooks para outros fins, entre eles o debate activo e construtivo e a troca de ideias. Mudança de mentalidade precisa-se, e já.

O Sir Winston Churchill deu uma dica muito forte: “Tem se dito que a democracia é a pior forma de governação existente, se não contarmos como todas as outras que foram tentadas até agora.” Ou seja, tens o poder de voto, usa-o sabiamente porque este é a melhor forma de governação que temos. Faz-te ouvir, porque a tua voz também conta. E se não, faz-lhe contar. Xé menino, fala politica.

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~ por Havemos de Voltar em Março 18, 2011.

Uma resposta to “Xé Menino, Fala Política”

  1. de facto… grande artigo coz!!! nós temos q começar a trilhar pelos nossos proprios caminhos como jovens, porqe esta mais q provado q, mesmo com as melhores das intençoes, as soluçoes apresentadas pelos kotas sao a curto prazo e com o tempo apenas criam mais problemas. um verdadeiro ninho de ratos q nós teremos q resolver no futuro, apesar do facto de n termos sido nos a cria-lo! se nao nos dao o q eh nosso de direito, entao q sejamos nos mesmos a ir busca-lo. q façamos um “futuro do amanha” mas brilhante q o “presente de hoje”
    força

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