O primeiro passo já foi dado

O primeiro passo já foi dado

Por Aline Frazão “Kukiela”

Estes dias, vivemos mais um daqueles episódios representativos da situação política angolana. Na verdade, não houve muitas surpresas, mais confirmações. O regime mostrou como qualquer vento mais frio lhe faz tremer os calcanhares e sobre-reagiu de maneira inexplicavelmente imatura, denunciando-se a si próprio e deixando à vista que não é só o povo que tem medo.

Confirma-se uma estratégia de gestão política baseada na intimidação, na ameaça e na distorção de conceitos. Assistiu-se a uma constante evocação das memórias recentes da “guerra” como argumento de dissuasão que funcionou de maneira contagiante. Essa falsa associação “manifestação=guerra” viu-se plasmada em várias opiniões, mostrando a vulnerabilidade dos angolanos à manipulação e ao medo.

Confirma-se que os meios de comunicação nacionais estão completamente controlados, pois enquanto que na internet o debate se acendia timidamente, eles mantiveram-se na penumbra e no silêncio, invisibilizando ao máximo a convocatória e a manifestação do dia 7. À meia noite, todas as rádios passavam música em Luanda. Dessa forma, ficamos sem saber o que se passou na capital e por todo o país. Não existe sequer uma imagem e permanecem notícias graves por confirmar. Uma vez mais, reina o mujimbo.

Na esfera política angolana, especialmente na oposição, confirma-se a incompetência generalizada, a cobardia e a falta de seriedade. Entre outras coisas, não se compreende a troca de acusações e constantes mujimbos, daqui para ali, entre o MPLA e a UNITA. Não se entende como o líder do principal partido da oposição se ausenta do país num momento desses. Não se entende bem a jogada de auto-exclusão do Bloco Democrático, ao tomar uma posição paternalista pondo em causa a preparação dos cidadãos e saindo temerosamente de cena, retirando o apoio aos manifestantes e a confiança ao povo angolano.

Mas o grande ausente de toda esta estória, onde era personagem principal, foi o nosso presidente da república, que em nenhum momento falou à nação ou prestou satisfações sobre os acontecimentos que preocupavam os angolanos, nesse momento. É o dever de um presidente comprometido com os cidadãos que legitimam o seu poder, dar a cara e posicionar-se claramente em situações de inquietação popular. Apesar de não estarmos habituados a isso, não devemos deixar de exigi-lo.

Confirma-se que se confiarmos nas elites estudadas e viajadas para empreender as mudanças políticas urgentes em Angola, bem que podemos morrer sentados e desesperados de tanto esperar. Sente-se falta de mais espírito crítico, mais coerência, menos paternalismo, menos demagogia e, em definitiva, menos MEDO. A emancipação dos angolanos  depende deles próprios e só vai acontecer quando a união for genuína e transversal a todas os sectores da sociedade.

Mas houve quem desse a cara, mesmo num contexto difícil de muita pressão, intimidação e falta de apoio. Aproximadamente 20 pessoas entraram em cena na Praça da Independência e, em poucos tempo, viram os seus direitos cívicos desrespeitados de forma inconstitucional e autoritária. A polícia, cumprindo ordens superiores, cercou os manifestantes e deteve-os sem qualquer acusação formal. Estas detenções desencorajaram, assim, a multidão que já se encontrava nas imediações da praça bem como muitas outras pessoas que circulavam de carro, expectantes, pela zona. E, lá do alto, o nosso poeta-libertador observando, impotente, a ironia da História.

A verdade é que o dia 7 de Março de 2011 foi só o começo, o primeiro passo já foi dado. Essa madrugada não acabou e muitos dos angolanos que ficaram nos bordes da Praça da Independência têm ainda tempo para dar o passo, entrar e levantar a voz, exigir o respeito pelos seus direitos e construir com as próprias mãos a democracia que queremos.

Daqui para a frente, importa reacender o debate e vencer o medo. Um regime que dá tantas provas de fragilidade, em tão pouco tempo, é um regime que sabe da injustiça em que assenta o seu projecto político e que teme  que essa consciência se estenda ao conjunto da população.

É tempo de que o povo angolano, através de ferramentas pacíficas, comece a dar passos positivos de participação política democrática. O primeiro passo já foi dado.

Kukiela

Anúncios

~ por Havemos de Voltar em Março 15, 2011.

2 Respostas to “O primeiro passo já foi dado”

  1. a questão devia ser tratada de forma mais democrática pela imprensa, e o governo promovendo o debate de idéias e para que se soubesse ao fundo o que que se está a passar não criar esse clima de pânico, de guerra cívil como tem sido feito pelo discurso ameaçador e musculado feito pelo sr. Rui Falcão.coisa que a mim muito tem intrigado é que sua Excelência o Engº. José Eduardo dos Santos, Patrono da Nação, arquitecto da paz, o presidente da república não apareceu até a data em público para dar declarações a nós o povo angolano, quando está eminente uma “crise” que põe em risco a paz e unidade nacional. Mais que uma disputa política de poder, eu que essa polémica toda tem me feito enxergar é que nós continuamos, ignorantes, facilmente manipuláveis e influênciaveis, agimos e falamos sem mesmo saber o porquê ou para quê, umas verdadeiras “marias vai com as outras”, mas também que se começa a notar algum pluralismo de idéia e opiniões demonstrado pela sociedade embora ainda com algum medo.
    É necessário que nós estejamos atentos e vigilantes, reivindicarmos os nossos direitos mas para isso é necessários primeiro que os conheçamos, estejamos bem cientes dos nossos deveres.

  2. concordo e simpatizo com muitos, senao todos pontos expostos neste artigo. acho que o governo agiu de uma maneira inexplicavel. nao vejo razao para o panico q a manifestaçao de 7 de maio causou… o medo nú e cru dos governantes, que ameaçaram livre e abertamente a populaçao. o calar de quem deve impor a ordem no circo, a passividade e indeferença da oposiçao… o tapar o sol com a peneira. nada disto faz sentido!
    adicionalmente, gostaria de dizer q os passos a serem dados posteriormnt devem ser na direcao certa, e de forma firme e madura. nao obstante idealismos e inclinaçoes politicas, um facto é real: É NECESSARIO MÜDANÇA… nós somos essa mudança, nós somos o futuro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: