Quem Não Deve Não Teme – Repercussões da ‘Revolução Jasmim’

No dia 17 de Dezembro, um ‘zungueiro’ tunisino de nome Mohammed Bouazizi, farto de tanta perseguição por parte das autoridades tunisinas, e proibido de vender jornais ou fruta na rua por policias extra-zelosos (um pouco como os fiscais gostam de fazer em Luanda), decidiu imolar-se em plena via pública. Talvez ele não sabia, mas com este seu acto de suicídio em desespero, iniciou uma das maiores revoluções que alguma vez aconteceu no Magreb em particular e no mundo árabe em geral. E assim começou a Revolução Jasmim.

No íncio, não prestava muita atenção à onda de protestos que este acto do zungueiro tunisino causou no seu país. Mas, tendo a BBC como minha página inicial, rapidamente os protestos da Tunísia se tornaram difíceis de ignorar. Começaram a surgir relatos da ditadura do seu presidente, o Sr. Ben Ali, antes por mim desconhecido, santa ignorância minha. Como ‘kunanga’ que ás vezes sou, principalmente de madrugada, pus-me a ler detalhadamente sobre o regime repressivo e ditatorial do Ben Ali. Qual foi então o meu espanto, escassos dias depois, a ver o ex-presidente tunisino a fugir do seu país, vítima de uma revolta popular legítima, democrata e apartidária.

O mundo árabe estremeceu, e por poucos momentos todos éramos tunisinos. O povo não parou por aí e exigiu que a justiça fosse feita: queria que todos que se relacionaram com o regime do Ben Ali saíssem do poder. A Suíça rapidamente congelou as contas bancárias do ex-líder. Os tunisinos foram arquitectos e enginheiros da sua própria mudança.

A seguir foi a vez do Egipto e o Hosni Mubarak. Surgiu um grupo no Facebook, aderido por milhares de egípcios, a proclamar uma manifestação pacífica na praça de Tahrir para o dia 25 de Janeiro. Lembro-me de na altura ter lido vários relatos de analistas, jornalistas e os demais a dizer que o Egipto nunca teria a mesma sorte que a Tunísia, que o povo não era tão educado, que a taxa literária era mais baixa, que a penetração da internet era muito menor, e por aí em diante.

Mas quando estes mesmos analistas se depararam com a extrema força de vontade do povo egípcio, quando perceberam que acima de tudo o povo queria a saída do Hosni Mubarak do poder, quando viram que dia apôs dia os manifestantes não saíam da Praça Tahrir, e melhor ainda, os seus números não paravam de crescer, quando viram tamanha manifestação tão bem organizada, que nem mesmo os capangas do Mubarak foram capazes de destruir com os seus tiros e surras, quando viram a Praça de Tahrir a se tornar uma mini-cidade, estes mesmos analistas viram o estonteante erro da sua análise e tiraram o chapéu ao povo egípcio. E lá se foi Mubarak para Sharm-el-Sheikh, o segundo ditador árabe a ser tirado do poder à forca pela força da razão do seu povo.

Se a saída do Ben Ali fez tremer o mundo árabe, a saída do Mubarak foi um autentico terramoto. Mas foi também uma lindíssima fonte de inspiração para todos os povos oprimidos a volta do mundo, por causa também da atitude exemplar tomada pelo exercito e força policial egípcia. Deram um exemplo de moral ao mundo e demonstraram o mais apurado sentido de estado, frase esta que certos políticos da nossa praça gostam de dizer aos quatro ventos sem terem um verdadeiro conhecimento do que ela significa.

Rapidamente surgiram manifestações pacíficas e muitas vezes violentas um pouco por todo lado: Argélia, Marrocos, Iémen, Costa do Marfim, e até no Irão. De realçar que a violência era sempre perpetrada por elementos do regime no poder. Mas a revolta que mais está a assustar o mundo são as manifestações na Líbia. Nunca alguém pensou que o ditador que há mais tempo “governa” um país africano fosse ser contestado pelo seu povo faminto, farto de abusos, e extremamente corajoso.

Os acontecimentos na Líbia são completamente cativantes, mas do que qualquer novela, série ou jogo de futebol. É o que me faz ficar acordado à noite estes dias, para ser testemunha da história. É que a reacção do Khadaffi está a ser tão repulsiva, tão desmedida e terrorista, que não sei como é que alguma vez ele pode ter dito que ama o seu povo.

Na cabeça dele os protestadores ou são drogados, ou jovens e crianças, ou, como ele disse hoje, agentes estrangeiros pagos pelo Bin Laden. Não sei em que mundo vive este “líder”, mas a realidade é que no terreno, o seu povo desarmado está a ser morto a sangue frio, a queima roupa, sem piedade nem remorso; há relatos de que ele ordenou que aviões e helicópteros participassem na chacina, alvejando cidadãos indefesos com as suas armas belicosas. E talvez o detalhe mais alarmante nesta saga é o uso por parte do Khadaffi de mercenários estrangeiros que estão a matar indiscriminadamente gente indefesa, já que muitas vezes os soldados líbios não aceitam disparar contra os seus próprios tios, irmãos, filhas e mães.

Os estrangeiros que estão a ser evacuados do país falam em grandes atrocidades, banhos de sangue e um aeroporto que se tornou um autêntico caos. Muitos usam a palavra “inferno”.

Mas nas palavras do filho do Khadaffi, Saif el-Islam, a situação em Tripoli está “normal.”

A sério. Tal pai, tal filho. O discurso dos dois é tão incoerente e patético que até chegaria a ser cómico, não fosse a morte de centenas de cidadãos indefesos. E mesmo perante ameaças de guerra e banhos de sangue por parte do regime, o povo líbio está sempre na rua. A coragem deles é arrepiante.

No meio de tudo isso, e por causa de tal inspiração, um grupo angolano denominado MRPLA (Movimento Revolucionário do Povo Lutador de Angola) decidiu convocar uma manifestação em Angola, sobre a qual vocês já devem ter lido. Não quero neste artigo falar acerca desta manifestação, mas sim dois pontos interessantes: a reacção dos nossos irmãos moçambicanos acerca dela e a resposta do governo/partido/estado (vamos ser sérios, é a mesma coisa).

Hoje de manhã como (quase) todos vocês fui ao Facebook. Deparei-me com um post do Mano Azagaia alertando a malta sobre as manifestações em Angola. Seguem as reacções dos nossos conterrâneos moçambicanos:

“Ouvi isto na semana passada! Meus amigos angolanos tem medo de entrar no grupo! E nem comentam a quando toco no assunto…em Angola a censura é total.”

Outro disse: “Uma das razoes que o governo Angolano sempre recusou a insecao de vistos entre Angola e Moz porque depois de tantas manifestacoes em Moz o Governo Angolano temia o intercambio entre os Mocambicanos e Angolano, mas o engano deles eh que se esqueceram das redes sociais, radio e televisao e que falando a mesma lingua seria facil interagirmos para o despertar do povo Angolano, veja o que vai acontecer brevemente Angola.”

E este: “Nunca estive em Angola mas sempre achei os Angolanos de matrecos de verdade, veja so para riqueza do Angolano e tamanho do pais a grandeza desse pais a serem matrecados enrabados posso dizer, agora vai arrebentar, nos os Mocambicanos ca sabemos como tratar os nossos governantes. A primeira cena partir lojas e queimar pneus, e os nossos soldados assaltam farmacias chega, chamada de atencao que ha merdas…”

E por ultimo: “Já agora sabiam que o presidente de Angola nao deixa os emigrantes votarem? É isso mesmo, Angolano no estrangeiro nao tem direito a voto…”

Ou seja, parece que somos mesmo o povo lusófono com mais medo, que mais nos auto-censuramos e que menos direitos temos. Claro que isso tem os seus motivos, que são vários e diversos. Mas um deles, e um dos mais importantes, parece ser que para se singrar na vida em Angola, para se ‘comer do bolo’, tem que se ser parte do partido. E não há como não pensar sem ser com a barriga, pelos vistos.

Agora, uma coisa é certa. Quem não deve não teme. A reacção do governo para com esta manifestação, que por sinal está consagrada na nossa constituição, artigo 47, e é portanto, do nosso direito, é suspeita. Porquê o discurso musculado? Para que servem as ameaças? E para quem? Afinal só o Movimento Nacional Espontâneo é que pode fazer uso deste direito de cada cidadão? É verdade que infelizmente o povo angolano não tem cultura de manifestação, mas creio que é de propósito. Sempre que surge um momento de nos manifestarmos pacificamente, tal como na altura das demolições de casas em Benguela e na Huíla, foi nos negado tal direito constitucional.

Penso que com as declarações do Dino Matross e o Rui Falcão, o regime marcou um auto-golo vergonhoso. Alguém ouviu o presidente namibiano, botsuanes, zambiano, caboverdeano, ou de outro país verdadeiramente democrático a se pronunciar contra possíveis manifestações nos seus respectivos países? Dá que pensar. E a propósito, enquanto quase todo mundo condenou as acções do Ben Ali antes que ele foi deposto, e vibrou com a sua fuga da Tunísia, enquanto que quase todo mundo deplorou a força usada pelo Mubarak, apelou ao seu bom senso, e festejou com o povo egípcio quando o seu ditador foi deposto, enquanto que quase todo mundo deplora veementemente as acções horrorosas do Khadaffi, não acham um pouco estranho que ninguém de realce no regime angolano faz o mesmo?

Afinal de contas, quem não deve não teme. Se o país é verdadeiramente um estado de direito e democrático, não devemos estar a festejar os acontecimentos no Magreb e a condenar o governo do Khadaffi?

Penso que a nossa situação como angolanos atrofiou um pouco a nossa capacidade de raciocínio, eu incluído. Gostamos de fazer o que eu gosto de chamar de “ginástica mental”. Gostamos de nos aldrabar. Mas que tal fazermos um jogo que eu gosto de chamar “chamar as coisas como elas são/chamar as coisas pelo nome”, também conhecido como “Vamos só parar de nos mentir”, ou então “Não é porque as vezes…?”

Vou começar. Nós não vivemos num estado democrático de direito. Não é porque as vezes, é mesmo sempre. Não vivemos numa sociedade democrática. Existe o medo entre nós. Somos alvo de intimidação por parte do nosso próprio regime. Temos muito caminho a percorrer se quisermos ser verdadeiramente democratas. Temos medo de nos manifestar e reivindicar os nossos direitos como estão estipulados na nossa própria constituição, porque, como disse o camarada Dino Matross, vamos apanhar. Já não podemos eleger o nosso presidente directamente. Não é porque ás vezes, é mesmo sempre.

Mas ao mesmo tempo, e como reza a história, nada dura para sempre. Estamos perante uma grande revolução no continente e no médio-oriente. Os nossos pais viram cair o império português e assistiram, orgulhosos, a proclamação de repúblicas africanas independentes, os nossos irmãos mais velhos lembram-se vivamente da queda do Muro de Berlim, e nós estamos a presenciar, a viver, a Revolução Jasmim, a Revolução do 25 de Janeiro (Egipto), e a Revolução do 17 de Fevereiro (Líbia).

Um dia o meu filho vai me perguntar, “Papá, estavas aonde quando o Khadaffi caiu?”

“Estava no Facebook, filho”.

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~ por Havemos de Voltar em Fevereiro 24, 2011.

2 Respostas to “Quem Não Deve Não Teme – Repercussões da ‘Revolução Jasmim’”

  1. não posso senão felicitar-te pelo artigo, cujo conteúdo, cuja análise da situação que se vive no mundo e em Angola é pertinente, sensível e sensata. Dá que pensar. Dá mesmo muito que pensar no nosso papel na História do nosso país. “Não pergunte o que o seu País pode fazer por si, pergunte-se se o que pode fazer pelo SEU País”, disse John F. Kennedy. Chegou a hora.

  2. yah mano… to contigo no que disseste! infelizmente n tenho estado muito atento a estas situaçoes e o meu conhecimento resume-se a meras sinteses e discussoes de relaxe com a meninha hehehe!!! anyways, uma vez evidenciada a minha falta de conhecimento da causa, exponho a minha opiniao:
    acredito que como disseste, e bem dito, o contexto norte-africano é muito diferente do contexto angolano. adicionalmente, acredito q é ingenuidade acreditar que as manifestaçoes q tomaram lugar foram orqestradas exclusivamente pelo povo sem forças paralelas (chamem de falta de fe, mas eu prefiro usar o termo bom senso. notem q mesmo a imprensa extrangeira eh uma aliada poderosa). acredito q uma revoluçao em angola nunca alcançaria esta escala (pelo menos nao num futuro proximo). a razao dessa minha opiniao n deve-se inteiramente ao MPLA! aceito, acredito e concordo q o MPLA tem a sua quota nas culpas dos males no nosso pais, mas quem me conhece sabe q a minha abordagem é num prisma diferente. acredito q o MPLA desempenha o seu papel como vencedor(entenda-se, da guerra colonial ou civil ou de uma qualquer luta q eles tanto fazem referencia com a sua maxima “a luta continua…”). cabe ao povo e a oposiçao lutar pelos seus direitos. como disseste, o povo libio, mesmo a ser massacrado, continua de pe e firme nas manifestaçoes. uma maxima (de minha autoria) que eu acredito: para haver mudanças tem q haver sacrificios. o problema do povo e da oposiçao angolana eh precisamente esse. ninguem quer se sacrificar, e os q o fazem, fazem em vao (caso Mfulupinga por exemplo, que desempenhou o seu papel e todos foram ou covardes ou incapacitados de dar continuidade)… aki na africa do sul, qando o mandela foi preso, o anc continuava a dar seguimento as suas obras por exemplo. o povo angolano eh sim covarde como disseste, e interesseiro, pois a maior parte, incluindo as pessoas q falam mal de tudo, vendem-se logo antes das eleiçóes nas famosas maratonas da cuca!!! infelizmente, acho q a nossa populaçao eh incapacitada de um gesto desses e imerecedora d qualqer apoio para tal fim…
    qanto a reaçao do governo, se serve de alguma coisa, tambem aki na africa do sul n ha nenhum pronunciamento oficial (n q saiba), facto q realmente me espanta. acho q talvez seja para evitar incitaçoes implicitas ou mesmo explicitas… de qalqer forma, espero n ter fugido muito do assunto.
    VDB

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