A Imprensa Estatal Angolana

A Imprensa Estatal Angolana, por Cláudio Silva

Imprensa estatal angolana

“You can fool some people sometimes, but you can’t fool all the people all the time.” – Bob Marley, em Get Up, Stand Up

A imprensa estatal angolana não é digna deste nome.

É sim uma imprensa partidária, viciada, e oficiosa. Há vezes até que chega a ser raivosa, insultuosa, e vergonhosa. Estas são graves acusações para se fazer sem fundamento, mas não é à toa que as faço. Ora vejamos.

O que é a imprensa, e qual o seu papel?

Uma viagem rápida ao Wikipedia, a fonte de toda sabedoria humana (hehe) dá nos a seguinte definição da palavra imprensa: “imprensa é a designação coletiva dos veículos de comunicação que exercem o jornalimso e outras funções de comunicação informativa – em contraste com a comunicação puramente propagandística ou de entretenimento.”

Se analisarmos a imprensa estatal angolana com base neste definição, que mesmo vindo do Wikipedia, penso ser uma definição apurada, então chegaremos a conclusão que a ‘imprensa’ estatal angolana não é digna deste nome porque são poucas as vezes que practica o jornalismo, e inúmeras as vezes que practica a propaganda da pior espécie.

E qual o papel da imprensa? Tem vários. A imprensa informa, relata, e forma opiniões. São muitos os sociólogos, líderes, políticos e não só que consideram a imprensa como sendo o quarto poder estatal, a seguir ao executivo, o legislativo, e o judicial. Sendo assim, a imprensa tem o papel extremamente importante perante o povo, e influencía bastante a maneira de pensar deste. Quando acontece algum evento, a imprensa relata o sucedido e ajuda-nos a formular opiniões acerca do que se passou. Muitas das vezes é a nossa primeira frente de raciocínio. Ou seja, o seu poder em formular os nossos pensamentos não pode ser menosprezado.

Em países sérios, a imprensa é tambem um forum de intenso debate, de troca de ideais, de diferentes linhas de pensamento. Nestes países, existe também o chamado jornalismo investigativo, e por via deste ja foram descobertos inúmeros crimes, inclusive o grande escândalo da Watergate em que o ex-presidente americano Richard Nixon foi acusado de estar escutar (wiretap) ilegalmente as conversas do seu partido rival.

Tendo analisado brevemente o que é a imprensa e o seu papel no nosso quotidiano, analisemos então a imprensa estatal angolana, por partes. Tem ela quatro vertentes: o Jornal de Angola, a Rádio Nacional de Angola, a TPA, e a agência Angola Press. O Jornal de Angola é o único diário do país e como tal tem responsabilidades acrescidas para com os seus leitores. Espera-se dele um orgão que pacta com a verdade, com as boas prácticas jornalísticas, e com a imparcialidade. Na realidade, o Jornal de Angola é um mero instrumento partidário (do ‘partido do coração, pois claro) e espalha a propaganda. Não há integridade jornalística, diversidade de opiniões, ou algo parecido. A linha de pensamento é só uma.

Mais grave aínda são os artigos de ‘opinião’ que, não sendo assinados, passam-se por notícia. Saberá o nosso povo, a maioria do qual é analfabeto ou tem um nível de escolaridade muito baixa, distinguir opinião de notícia, ainda mais quando não há diferenças entre as duas? Tive a sorte de estar em Angola por altura das mais recentes eleições legislativas e lia todos os dias a coluna Tempo de Antena. É um excelente exemplo destes artigos de opinião que não são definidos como tal. Nela, o autor raivoso descargava toda sua vénia aos ‘tempos de antena’ dos partidos rivais, elogiando sempre o do seu partido ou o da Nova Democracia (pudera). Claro, a maioria dos tempos de antena eram cómicos, mas havia sempre um flash informativo bem feito por parte da UNITA ou da FPD. Mesmo assim, eram sempre ridicularizados com uma raiva incomun. O cidadão lé isso e pensa, ah, deve ser mesmo verdade, olha só, é noticia, nem está na secção de opinião. Isto se o cidadão ainda se dá ao trabalho de destinguir as coisas.

Temos ainda o exemplo mais recente de o embaixador francês ter protestado ao Jornal de Angola pelo facto do nosso jornal ter tentado culpar a França pelo ataque terrorista da FLEC sobre o autocarro da seleção do Togo, numa coluna particularmente raivosa.

Na questão da RNA, oiço pouco a Rádio Nacional de Angola para falar muito sobre ela mas é farinha do mesmo saco. Também acho muito curioso que a rádio mais sensata do nosso país, a Rádio Éclésia, até hoje não é ouvida em todo território nacional.

Sobre a TPA, todos vemos os seus noticiários que são mais propaganda do MPLA. Foi preciso vir a TV Zimbo, por sinal uma iniciativa privada, para finalmente termos debates na nossa televisão, entre forças políticas contrárias.

Na Angop, já nem se fala. De notar que sempre que o governo queira fazer uma campanha de difamação, uma caça as bruxas, utiliza a sintonia existente entre a Angop e o Jornal de Angola. O caso mais recente foi o abandono da sala parlamentar por parte da UNITA. Na Angop, saiu artigo após artigo condenando o abandono, artigos isentos de imparcialidade, verdade, e muitas vezes, autores. Depois também aparecem sempre artigos do tipo ‘tal e tal condena acção da UNITA’ sem alguma vez alguém deste partido ser ouvido na mesma imprensa. Gente como Jorge Valentim, que há muito tempo  não diz algo productivo (que há muito tempo não diz algo, ponto!) também abre a boca para dar o seu palpite tendencioso. No Jornal de Angola, aparecem sempre as bocas de aluguer de costume, os João Melos, José Ribeiros, Artur Queiróses, a lista é extensa, numa fantástica orgia de culto ao chefe, preguiça mental, lambe-botismo, linha única de pensamento, repugno ao debate, e falsidade jornalística. E o povo vai tendo a sua mente formatada, fechada, aversa ao debate, à opiniões contrárias, à verdade.

Mas como diz o Bob Marley, podem enganar algumas pessoas algumas vezes, mas não nos enganam a todos sempre.

Não é o papel da imprensa falar à toa (pra isso estamos aqui nós).

E tu? O que achas da nossa imprensa estatal? Conversa para bói dormir (falando em bóis, Victor, se leres isso, continuo à espera do meu bói, favor mandar por DHL) ou algo sério? Concordas com as opiniões deste post, ou achas exageradas? Comente, participe, argumente!

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~ por Havemos de Voltar em Fevereiro 12, 2010.

3 Respostas to “A Imprensa Estatal Angolana”

  1. mô claudio. sempre revolucionario. o teu boi ta a caminho, mas sabes neh, so volto a comer bois quando estiver preparado a comer pessoas, afinal somos todos irmaos hahahahaha.
    isso nao acontece muitas vezes, mas por acaso vou ter que concordar contigo 100%. nao ha discordia a nada do que disseste. a nossa imprensa estatal eh, na melhor das hipoteses, vergonhosa. e sem querer levar isso para alem do que realmente eh (ou num outro idioma, push it), esta tua descripçao estende-se a alguns dos nossos semanarios privados. eh incrivel a falta de discordancia na nossa imprensa. e infelizmente, tambem existem semanarios com essas mesmas caracteristicas, mas com uma acçao oposta. com isso quero dizer que atacam o governo e mais notavelmente o presidente por tudo e por nada, nao obstante o valor real do facto a ser noticiado. sao poucos os orgaos que de facto tem uma natureza noticiosa no verdadeiro sentido da palavra. acho que orgaos de informaçao apoliticos deveriam ser criados, ou pelo menos os existentes deviam disfarçar mais a sua face politizada. acrescentando a esse artigo, acho boa a iniciativa da unita em ter criado a sua propria radio e semanario. acho que isso eh que significa fazer oposiçao. num contexto diferente (prefiro este termo inves de “num pais serio”), faria sentido que se esperasse por uma mudança espontanea. mas no nosso contexto actual, qualquer partido na posiçao do partido do poder, acredito, faria parecido. a oposiçao tem que conquistar o seu espaço, tem que arranjar formas de soltar a sua voz e dar-se a conhecer ao povo. e isso nao acontece apenas nas vesperas das eleiçoes. tantos partidecos que no quotidiano angolano nao existem vieram a tona aquando das eleiçoes legislativas, como eh que o mpla nao ganharia com a maioria absoluta? pra agravar ainda mais a situaçao, eles foram os unicos com maratonas e festivais para a juventude. e tavam a espera que o povo votasse em quem? as coisas sao simples… como o paulo diz, a logica cientifica as vezes deveria se aplicar na vida practica, e segundo newton: um corpo conservara o seu estado ao menos que seja influenciado por uma força externa, a mudança de estado de um corpo eh proporcional a força que age sobre ele e finalmente, uma acçao causa sempre uma reacçao similar mas oposta. isso eh a vida, isso eh politica, isso eh um pais. aguardo pacientemente pelo momento em que chegaremos a este Estado.

  2. Esse não é um mal só dos media estatais. Os chamados “privados” não me chegam a convencer, apesar de cada vez mais haver debates nesta ou naquela rádio, mais crítica em algum noticiário da Zimbo, mais titulares provocatórios do AGORA ou do Angolense.

    Do meu ponto de vista falta muito para termos uma comunicação social em geral que faça realmente o seu trabalho de reportar a realidade angolana, de apresentar factos sem condicionantes, de dar voz ao povo e falar dos seus reais problemas, de informar o cidadão-eleitor para que possa votar mais consciente e incomodar o poder, pressioná-lo. Estas funções estão esquecidas aliás em quase toda a comunicação social mundial (mais preocupados com as audiências e em entreter as massas), ainda que em paises onde exista menos educação esse problema se agrave consideravelmente.

    O que eu quero dizer é que essa “auto-censura” ainda é uma constante em todas as camadas da sociedade angolana. Não nos permitimos criticar o governo en qualquer espaço ou em qualquer contexto com aquele medo das “consequencias”. Há mil exemplos disso e todos nós conhecemos esse mal, em nós ou em quem está ao nosso lado.
    É preciso acabar com esse medo de criticar, acusar e exigir. E não falo das conversas de quintal onde todos os temas vêm para cima da mesa. Falo de uma sociedade civil organizada e proactiva. Além de esperarmos sempre que o governo dê e resolva, um pouco de iniciativa e auto-gestão não nos ia prejudicar nada, não é? =)

    Mas no que diz respeito à liberdade de expressão, creio que há progressos. O Hip-Hop nacional (o de verdade, claro) é uma prova disso. Tem um público fiel às suas mensagens de consiência política e social. Felizmente.

    Siga o blog e mais como este.
    Vamos lá ver é se saimos dos blogs para vida-real. =)

    Kandandu,
    Kukiela

  3. Tas “on fire” claudio mais uma vez conseguiste dizer a verdade sem papas na lingua. Realmente a nossa imprensa deixa muito a desejar. Da-me muita graça ver nos debates da tv akeles bajuladores que referiste, bem atrapalhados p nao falarem algo que ofenda as elites d nosso país. Nota-se o pouco à vontade que as pessoas falam perante as câmaras. O culto ao chefe é constante, todo discurso tem de haver agradecimento ao governo ou ao presidente.
    Mas como disseste e bem, a imprensa é o quarto poder estatal e os nossos governantes usam e abusam delas enquanto nós permitirmos. Nos como consumidores temos de ser mais exigentes, deixar de credibilizar esse tipo de informação que nos aparece de modo a que as suas audiências caiam. A CNN chegou onde esta hj porque marcou a diferença nas suas notícias.
    Kukiela concordo contigo o hiphop tem sido um meio de transmissão de informação muito pertinente. Infelizmente nem todos conseguem ouvir musica de intervenção porque não “soa bem nos ouvidos”…
    Kandandu,
    Naccy

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