‘O Governo Tem Que Dar’

Há por aí espalhados na nascente blogosféra angolana blogs de expatriados portugueses, americanos, e não só, a viverem em Angola. Acho alguns deles bastante interessantes, porque oferecem-nos uma outra maneira de olhar para o nosso cotidiano. O que para nós é familiar e comun, para eles chega a ser irregular e exótico. Como diz o ditado, o jindungo nos olhos do outro é refresco!

Um desses blogs de estrangeiros em Angola e que eu leio assíduamente é o Aerograma, pelas reflexões bastante apuradas do seu autor, um portuga chamado Afonso Loureiro. Há alguns meses escreveu um artigo muito interessante e relevante que eu vou transcrever aqui (e “lincar” ao post original) entitulado, “O Governo Tem Que Dar.”

Aqui Vai:

O Governo Tem Que Dar, por Afonso Loureiro

Uma das frases mais repetidas em Angola ou, pelo menos, em Luanda é que o Governo tem de dar. Não sei o que pensa a maioria dos angolanos acerca disto, mas eu acho-a pouco condizente com o orgulho que se tem no país.

Não há problemas que as pessoas encarem como seus. A resolução de tudo tem de passar pelas mãos do Governo. Para este estado de espírito colectivo contribuiu, entre outros factores, um período de economia centralizada em que cada um era tratado como uma criança e apenas tinha de esperar que o Estado providenciasse trabalho, pão e tecto.

Os pescadores não têm barcos. Esperam que o Governo lhes dê uns, de preferência com motor. Passados alguns meses, o motor avariou, quer seja por falta de manutenção, quer seja por má utilização. Reclama-se e espera-se que o Governo ofereça outro, sabe-se lá a que custo para o país.

Se se constrói uma casa no leito de um rio seco e ela é destruída nas primeiras chuvas é uma desgraça, mas quem tem de resolver é o Governo, porque o cidadão construiu e o Governo não o avisou que era perigoso e agora não sabe onde vai morar. Se se encheu o rio de lixo e ele transbordou, tem de ser o Governo a limpar e a reparar as casas. Afinal de contas, a população tem muito orgulho no país e muito brio na obra do Governo.

Diz o Governo que quer apoiar os jovens, que é a grande maioria da população. Dá-lhes ferramentas, máquinas e motorizadas, geralmente sem contrapartidas. Já se sabe que o quue não custa a ganhar não é estimado como o que foi adquirido com o trabalho. Aliás, quando for preciso, o Governo dá novo.

Se há lixo nas ruas, não se pede caixotes, que seria a obrigação do Governo, pede-se que venha limpar, mas continua-se a atirar o lixo para qualquer canto.

O Governo tem que dar casas, carros e cabazes de Natal. Poucos são os que pedem aquilo que o Governo devia mesmo dar, que são escolas, pontes, saneamento básico e transportes públicos. O Governo dá gasolina barata em vez de transportes e electricidade. O Governo dá estádios em vez de pontes. O Governo dá casas em vez de hospitais. As pessoas habituam-se a andar de mão estendida para o Governo e passam a acreditar que a solução para tudo é pedir.

Conhecemos um sujeito que anda num carro a cair de podre, que lhe gasta o salário e mais alguma coisa em reparações e litros de óleo que vai pingando na estrada. A partir do próximo ano o seguro automóvel vai passar a ser obrigatório e ele não sabe como o há-de pagar. A solução por ele encontrada é que deveria ser o Governo a ajudar os jovens e pagar-lhes o seguro. A desresponsabilização por tudo excepto parece demasiado arreigada.

Quando ocorre um incêndio por causa das dezenas de geradores e depósitos de água que se acumulam promiscuamente nas traseiras dos prédios, é uma desgraça. Os bombeiros, quando chegam a tempo, contam apenas com a água que levam nos carros, porque a rede de incêndios há muito que deixou de funcionar. Muitas vozes se levantam depois pedindo geradores e depósitos novos ao Governo, em vez de exigirem bocas de incêndio a funcionar ou electricidade e água sem falhas que causem a necessidade de comprar os geradores e depósitos que fizeram arder o prédio.

Diz uma zambiana mal vista por meia África que os africanos têm de perder o hábito de estender a mão e enfrentar os seus problemas em vez de esperar que alguém os resolva por si. O desenvolvimento de África vai-se conseguir pela educação e não pelas ajudas humanitárias que apenas adiam a resolução das coisas.

Por este país fora tenho visto gente empreendedora, homens, mulheres e jovens a trabalhar para ganhar a vida, mas também tenho visto muitos desocupados, cujo único propósito na vida é espera que o Governo lhes dê alguma coisa, de preferência sem exigir nada em troca.

Espero que os angolanos aprendam depressa que o Governo não tem de dar nada senão educação, segurança, assistência social e médica, infra-estruturas e incentivos à economia. Tudo o resto depende de cada um.

E o que acham vocês? Estará o autor certo? O governo tem que dar, ou nós é que temos que nos esforçar? Existe um meio termo?

E o que acham vocês? Está o autor certo? O governo tem que dar, ou nós é que temos que nos esforçar? Existe um meio termo?

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~ por Havemos de Voltar em Fevereiro 8, 2010.

5 Respostas to “‘O Governo Tem Que Dar’”

  1. Desde já agradeço a leitura assídua do Aerograma, mas gostaria de acrescentar mais umas coisas ao artigo.

    O meio termo existe. O Estado auxilia quem não pode e cria condições para os que podem para se auxiliarem a si mesmos. O melhor auxílio que pode dar é saúde e educação, que é uma ferramenta muito mais útil que qualquer objecto oferecido.

    Criando sistemas de micro-crédito o Estado pode oferecer as mesmas coisas, mas cria também uma responsabilidade em quem recebe. Os incentivos existem, mas com contrapartidas.

    Talvez não fossem medidas tão populares, porque é muito mais simples receber sem ter de dar nada em troca, mas seriam mais eficazes.

  2. Viva,

    Concordo com as palavras do autor, realmente os angolanos esperam bastante do estado. Depois de alguma reflexão cheguei a conclusão que o próprio governo é culpado.

    Desde que entrei no ensino universitário, venho ganhando cada vez mais autoconfiança em realizar os meus objectivos. Isto porque o conhecimento que venho adquirindo da-me uma capacidade em resolver problemas não só a nível escolar mas também a nível pessoal. Quando não me sinto capaz de resolver certo problema, sei onde procurar ajuda, ou pelo menos, sei onde começar a procura-la. Acredito que é esta versatilidade que tem faltado aos angolanos e explico porquê:

    Na minha perspectiva, o embrião do problema deriva da colonização. Durante esse período embutimos na mente que se quisermos uma coisa bem feita, só os ocidentais seriam capazes de o fazer. Fomos perdendo a nossa autoconfiança em ultrapassar os obstáculos e isso vê-se claramente nas próprias acções do governo, que prefere sempre apostar no que vem de fora. Vivemos numa de “o governo que pague os estrangeiros para prepararem a cerimonia, que nós vamos lá curtir a festa”.

    Já alguém me disse que se trabalhasse em Angola, só aceitaria numa empresa do estado. E porquê? Ora porque as empresas nacionais bem sucedidas pertencem ao estado, são as que oferecem melhores salários e, sublinho, são as que oferecem mais regalias aos trabalhadores! Ou seja, aqueles que mais dinheiro ganham e que mais o deveriam gastar, são os que têm o privilégio de receber viagens a baixo custo, carros novos, casas em condomínios fechados e etc. A população pobre, coitada, também espera pela a sua vez, logo, porquê se chatear se no fulano de tal ofereceram um carro novo?

    De salientar que a população pobre que me refiro acima, é aquela com o nível de estudos baixo; que já tentou, mas não encorntra trabalho; que sonha enriquecer vendendo bebidas à porta de casa; que até gostaria de abrir um negócio sério mas não sabe como, nem onde recorrer; que nas vésperas das eleições lhe ofereceram um electrodoméstico e lhe prometeram uma casa; e assim por diante…

    Acredito que são estes factores que contribuem para a ociosidade que vai crescendo na nossa sociedade de forma alarmante. O angolano fora de Angola é visto como vaidoso, convencido, corrupto e muitos adjectivos dessa ordem. Está na hora de mudarmos a nossa mentalidade. Peço desculpa a quem não concordar comigo, mas a culpa continua no governo!

    • Afonso, estou feliz por vê-lo comentar no Havemos de Voltar, espero que volte mais vezes. Sobre a sua opinião que existe o meio termo, estou de acordo. Penso que o micro-crédito, o “empowerment” do cidadão angolano, e o investimento maciço na educação e na saúde são mecanismos para nos livrarmos do “o governo tem que dar”. Pena só históricamente o governo ter dedicado sempre uma quantia deficiente à educação e à saúde no Orçamento Geral do Estado…

      Nacy, Bom te ver por aqui com as tuas opiniões sempre em dia! A tua massa cinzenta continua a funcionar em pleno.Concordo com a maioria do que disseste, principalmente quando tocaste no ponto de auto-confiança. A auto-confiança é essencial para nos livrarmos deste sintoma. Os Estados Unidos tem os seus males e já fez muita trapalhice no mundo, mas uma coisa que não podemos negar aos americanos é a sua atitude de que tudo é possível. Os americanos chamam-na de “can-do attitude”. A atitude do “EU POSSO”. Esta atitude é instrumental para o desenvolvimento não só do ser humano mas do país também. É essencial que o angolano adquira esta mentalidade, em vez de estar a copiar outras facetas da cultura americana. Infelizmente não é essa a mentalidade que temos. Em Luanda espanto-me sempre com o grau de comodismo das pessoas. Tudo depende dos outros. Para tudo é preciso cunha, gasosa, etc. Estes males são simplesmente sintomas do graves problemas de auto-confiança e mentalidade que temos.

      Outra base do problema ‘o governo tem que dar’ deriva do nosso passado como estado comunista, em que a nossa economia era super-centralizada e a nossa vida sócio-política era comandada pelo estado. O estado é que mandava, o estado é que fazia, o estado é que dizia. Como em qualquer sistema comunista, a iniciativa privada era proíbida, ou nos melhores dos caso, minimamente tolerada. Aínda carregamos os efeitos deste sistema. E o governo caduco que temos continua a sentir que estamos no tempo do partido único, tal é a dificuldade que têm em se modernizar e abdicar da sua terrível burocracia. Mesmo a burocracia horrorosa de Angola também é sintoma do tempo do partido único. Enfim, problemas que só se agudizam a cada dia que passa, ainda mais com esta ‘constituição’ que engorda o governo até dizer basta.

      Vou mazé ver futebol…

  3. eu concordo com os comentarios deixados ate agora concernentes a este artigo mas, como nao podia deixar de ser, assumo uma posiçao menos extremista. como disse e bem o claudio, isto eh um mero sintoma dos tempos do comunismo em angola,onde literalmente tudo tinha que vir do estado. e como ja fiz referencia em alguns dos meus comentarios, esses tempos passaram-se relativamente a poucos anos atras (o colonialismo acabou apenas a 35 anos)… as sequelas da historia pos-colonial de angola, que eh muito peculiar, ainda estao implantadas nas nossas cabeças. acho que uma vez adquirida a noçao disso, a razao do “governo tem que dar” torna-se obvia: um resultado da evoluçao natural da historia de angola. agora a questao torna-se outra: como nos livrarmos deste mal? o nacy culpa o governo. na minha optica, essa atitude eh simplesmente uma extensao do “governo tem que dar”. quero com isso dizer que culparmos o governo pela nossa falta de iniciativa eh o mesmo que nos abstermos da culpa e esperarmos uma soluçao do governo, visto que ele eh a parte em falta. os outros comentarios culpam tambem o governo, mas pela falta de iniciativa. tambem nao concordo completamente com essa posiçao. eh muito facil usarmos os EUA ou outros paises como referencia, mas a verdade eh que o contexto eh extremamente diferente. essa atitude nao caiu do ceu. e como eh que se empower uma populaçao que nao tem instruçao nenhuma? como eh que se pedem contrapartidas a incentivos de um povo que nao tem nada a oferecer? como o nacy mencionou, acho que a instruçao devolve essa auto-confiança que falta aos angolanos, a tal de “can do attitude”. mas como disse, os nossos pais ja nao estao a ser instruidos. dos jovens, temos os que foram pra guerra e pereceram la, temos os que ficaram e tiveram que arranjar meios para ajudar as suas familias e foram esforçados a largar os estudos, os que nao fazem nada de jeito nas suas vidas a no ser gastar o dinheiro dos pais, os que mesmo com todas as dificuldades conseguiram formar-se so para descobrir que os estrangeiros ou angolanos que vem do exterior estao muito melhor capacitados (golpe na auto-estima e la se vai a can do attitude because you really can’t), e para finalizar estamos nos, angolanos na diaspora que tem uma visao extremamente irrealista do nosso pais e formamos as nossas opinioes com base nessa mesma visao. enquanto a sociedade nao se normalisa, enquanto essa nova geraçao de angolanos que ja pode ter uma educaçao aceitavel nao cresce, equanto esperamos pelos resultados dos esforços feitos apos a guerra (que de facto poderiam ser muito mais do que realmente foi feito, mas esses tambem sao outros assuntos), o que que fazemos? como eh que o povo vai se virar? na minha humilde, sincera e ignorante opiniao, o governo de facto tem que dar. numa primeira fase, o governo tem que dar ao povo, com o objectivo de criar uma classe media capaz de desencadear uma acçao empreendedora de impacto. criarem empresas que geram empregos e provisionam meios de subsistencia as classes mais baixas, e nao essas janelas abertas que nao tem impacto nenhum na sociedade, a nao ser aumentar o nivel de bebedeiras no pais, porque sim, pelo nivel do nosso povo e pelas suas possibilidades actuais, esse eh o unico tipo de empreendendorismo que vamos ter. eh necessario mudarmos as nossas mentalidades e tambem eh necessario existir essa classe media (em angola so existem ricos e pobres, visto que a classe media emergente nao comporta um numero de pessoas significativo, na minha optica) capaz de fazerem as coisas acontecerem. o governo tem que dar barcos, carros, salarios, cabazes mas tambem escolas, electricidade, agua, etc. cabe ao povo fazer bom uso de todas as condiçoes oferecidas pelo governo e de ir buscar o que faltar. resumindo e concluindo, nessa fase da nossa historia o governo tem que dar, mas o povo nao tem so que esperar pelas acçoes do governo. espero ter me feito entender.

    • Ok Victor gostei muito d tua opiniao. Realmente se ficarmos aqui a culpar o governo, apresentando ideias (que eles próprios deveriam ter), nunca mais sairiamos deste post. Esperar pelo governo torna-se um ciclo sem saída.
      Isso fez-me lembrar nos longos debates q tenho c um camba angolano (ate ja lhe convidei p vir comentar aqui) mt inteligente e cheio d ideias criativas. E ele uma vez disse q em vez de criticarmos angola, deviamos pegar nesses pontos e sermos nos mesmos a modifica-los. Talvez fosse boa ideia nós trabalharmos com o governo, mais precisamente com os ministérios, na tentativa de criar solucoes para os nossos problemas. O que se passa é que os nossos ministros sao antiquados, sem ideias, sem visao do desenvolvimento do mundo. E talvez a solucao passe p ai. Os jovens, pelo menos os que têm a “can-do attitude”, deveriam eles mesmos arranjar forma de entrar em contacto com os ministerios e empresarios para apresentarem as suas propostas. So assim poderão realmente ser considerados a geração “can-do”!
      Victor essas empresas q geram emprego p classes mais baixas sao empresas q trabalham nos ramos fabril, pecuaria, agricultura e etc. mas os nossos empresarios querem lucros rapidos e preferem apostar em petroliferas e diamantiferas. Esses gajos n têm visao de negocio. A riqueza constroi-se, n vem d um dia p outro.

      Abrç

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